Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai celeste. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mt 6.1, 6).
Estamos aprendendo sobre vida devocional, a partir da constatação de que cristianismo é vida com Deus. A fé cristã não diz respeito, primariamente, a crer intelectualmente em determinadas doutrinas. Ser cristão não é simplesmente participar de cerimônias religiosas ou assumir uma reforma moral. Nem mesmo é, essencialmente, participar de uma comunidade. Todas essas coisas podem ser providas por falsas religiões ou associações meramente humanas. O cristianismo tem a ver com uma revelação de Deus e um chamado especÃfico, tal como verificamos na vocação de Abraão, registrada em Gn 17.1: “Eu sou o Deus Todo-poderoso; anda na minha presença e sê perfeito”.
De modo mais claro ainda, o cristianismo declara que começamos a andar com Deus quando conhecemos a Jesus Cristo como Senhor e Salvador de nossas vidas. Como cantamos hoje, no Hino 209:
Deixe a luz do céu entrar
Deixa o sol em ti nascer
Abre o coração, que Cristo vai entrar,
E o sol em ti nascer.
Eis o ponto inicial, a porta de entrada ao cristianismo: Cristo em nossos corações, ou, como afirmou o apóstolo Paulo: “Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.27).
O texto de Mateus 6.1-8 nos diz coisas importantes sobre o cultivo da vida com Deus. Destacarei três princÃpios de devoção, extraÃdos desta passagens (e de outras correlatas). Depois farei uma sugestão de objetivos de leitura da Escritura. Em seguida, estarei fornecendo alguns subsÃdios para o estudo da BÃblia.
Separe um tempo e lugar especÃfico
Jeus nos diz para entrarmos em nosso quarto e fecharmos a porta. Isso diz respeito a um lugar separado para a devoção. É fundamental que o cristão defina um local para seus encontros com o Senhor. Cristo sugere que seja em seu quarto (isso tem uma boa base no Antigo Testamento, como veremos adiante), mas é possÃvel que você disponha de uma sala reservada (em seu local de trabalho ou estudos), uma boa sombra de árvore ou banco de praça, enfim, um espaço que permita a sua concentração, livre de interrupções. Logicamente, se este local for dentro do ambiente profissional, você fará sua leitura fora dos horários de expediente.
O apóstolo Paulo, ilustre teólogo e plantador de igrejas, era um homem de leitura, estudo, meditação e oração.
O outro fator determinante é o tempo. Todos hoje somos muito ocupados. Eu louvo a Deus por ser ministro do Evangelho, por poder organizar minha agenda de modo a ler, estudar e meditar na Escritura, orar em pleno “expediente pastoral”. Antes de dedicar-me ao serviço da igreja em tempo integral, trabalhei dezesseis anos na iniciativa privada e sei das dificuldades em abrir um espaço para a devoção. Logo cedo começa a correria, que termina tarde da noite. Saiba, no entanto, que essa não é uma dificuldade apenas dos cidadãos do século XXI. Dias cheios eram a rotina dos crentes dos tempos bÃblicos. Uma leitura da biografia de homens como Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards ou Richard Baxter é suficiente para mostrar o quanto aqueles servos de Deus eram ocupados.
O Salmo 119 é conhecido como o Salmo da Palavra de Deus. Uma das preciosidades deste Salmo é que ele não apenas elogia a Escritura, mas também indica uma estratégia devocional. O salmista informa como ele arranjava tempo para a leitura, estudo e meditação. Verificamos que ele também precisava “cavar tempo” para estar com Deus e ele o fazia, principalmente, nas noites e madrugadas (Sl 119.55,147,148). O escritor sagrado, no Sl. 55.17, nos informa que buscava a Deus três vezes por dia. Daniel também procedia da mesma maneira, apesar de todas as pressões e ameaças para que ele abandonasse sua vida devocional (Dn 6.10). Acerca disso, a mensagem do Hino 131 é muito preciosa:
Para seres santo, tempo há de tomar;
Com o grande Mestre, seu Livro estudar.
Tenha cuidado com a religiosidade aparente
Cristianismo é vida com Deus e essa vida é cultivada “em secreto” (Mt 6.4, 6, 18). A vida com Deus é diferente da vida de religiosidade aparente. Na verdade, a religiosidade aparente é superficial, trata-se de uma espiritualidade de “casca”, mascarada, hipócrita (Mt 6.2, 5, 16).
“Em secreto”, eis a expressão-chave da devoção. O que você faz “em secreto”? É preciso optar: ou desfrutamos da vida com Deus ou nos entregamos à vida religiosa. O Senhor Jesus fazia questão de estar a sós com o Pai Celestial (Mc 1.35; Lc 6.12). Ele é o nosso maior modelo de vida em comunhão. Com ele, aprendemos que a vida com Deus diz respeito a esse cultivo da autenticidade nos recônditos da vida privada. Vida com Deus tem a ver com você e Deus, em particular (Mt 6.6).
Abra sua BÃblia e comece a ler, do inÃcio ao fim, do primeiro capÃtulo e Gênesis ao último capÃtulo de Apocalipse.
É possÃvel que esse ensino seja mal intepretado — que afirmem que estou ensinando um pietismo alienante, dando ênfase exagerada ao individualismo religioso. Realmente é perigoso desconsiderar os aspectos comunitários da fé, a dimensão da igreja, do corpo de Cristo. É fatal quando passamos a considerar a espiritualidade como um assunto unicamente privado e subjetivo. É lamentável quando, em nome de uma consagração da alma a Deus, são esquecidos o próximo e o planeta terra, quando o cristianismo não tem nada a dizer aos pobres, aos não crentes e quando a sociedade é abandonada pelos santos. Por outro lado, a vida pública do seguidor de Jesus deve ser uma expressão sincera de sua devoção particular. Jesus Cristo, que exerceu um maravilhoso ministério público, investiu muito tempo na oração e meditação das Escrituras (Lc 6.12, 11.1). O apóstolo Pedro, que pregou com intrepidez na casa do romano Cornélio, era alguém que orava, meditava e contemplava (At 3.1, 10.9, 11.4-5). O apóstolo Paulo, ilustre teólogo e plantador de igrejas, era um homem de leitura, estudo, meditação e oração (At 16.13, 20.36, 22.17; Ef 1.15-16, 3.14-19; Fp 1.3-5).
Busque a recompensa mais preciosa
Cristianismo é vida com Deus e essa vida tem recompensa. Jesus afirma algo valioso: “… e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”
Qual o prêmio ou quais as bênçãos que desejamos alcançar? Quais são os nossos objetivos? O que nos empolga, o que nos mobiliza, o que move nossas entranhas e afetos?
Deus sabe que precisamos de motivação. Assim como um pai humano, ele deseja que seus filhos sejam felizes e bem-sucedidos. Todo pai sente prazer quando desfruta da amizade de seu filho; é bom perceber que nosso filho nos ama, demonstra afeição e gosta de passar um tempo junto de nós, somente conversando, recebendo cafuné (mesmo que seja um “menino” de 40 anos!) e compartilhando a vida. Pais priorizam o amor; para eles nada é tão valioso quanto o amor de seus filhos. Eles desejam ter os filhos junto deles e gostariam que tudo o que os seus filhos fizessem fosse em resposta ao amor recebido. Os filhos não precisam de outra motivação para estarem presentes, participarem da comunhão do lar e realizarem suas tarefas. A maior motivação é o amor — é agradar ao coração do pai. Apesar disso, os pais buscam estimular com presentes: “estude e eu lhe compro aquela camiseta especial”, “faça suas tarefas que eu lhe preparo aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate” — pais incentivam através de reforços positivos.
Deus faz algo semelhante. Não precisamos de mais nada para estarmos motivados. O que nos incita à vida devocional e ó sublime encontro com Ele mesmo:
A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo;
quanto irei e me verei perante a face de Deus? (Sl 42.2).
Conhecendo nossa fraqueza, nossa “infantilidade” e a necessidade de sermos apoiados de diversas maneiras, Deus promete que, além do gozo maravilhoso de sua comunhão, ele ainda nos concederá riquezas incomensuráveis, “recompensas” maravilhosas.
Que recompensa é essa, qual o teor dessa premiação? Jesus Cristo não entra em detalhes. Ele simplesmente nos convida a olharmos para Deus a fim de desejarmos a totalidade de suas misericórdias e bênçãos. Ele está nos informando algo precioso: Cristianismo é vida com Deus. Invista sua vida em Deus; vale a pena; você não ficará sem sua recompensa.
Quando encontrar termos que se repetem, fique de olho neles e — se você for como eu — marque-os com cores.
Havendo estabelecido essa base bÃblica, forneço agora algumas dicas que lhe auxiliarão em sua prática de leitura e estudo das Escrituras.
Assuma a leitura
Decida-se a conhecer a Palavra de Deus. Estabeleça uma meta pessoal de leitura regular, diária. Escolha um método que lhe seja mais adequado e comece imediatamente. Existem váriaspossibilidades:
- Leitura linear. Abra sua BÃblia e comeca a ler, do inÃcio ao fim, do primeiro capÃtulo e Gênesis ao último capÃtulo de Apocalipse. Assuma isso sem pressa, comprometendo-se absolutamente com a regularidade (leitura diária) mas sem se preocupar com o tempo de finalização.
- Leitura multidirecional. Escolha um livro por vez e leia-o até o fim. Depois, escolha outro e faça o mesmo. Repita o processo infinitamente, enquanto viver. Esse é o meu método.
- Leitura orientada. Utilize planos de leitura. Muitas edições de BÃblias são impressas com planos como esses, com listas de todos os dias do ano e as recomendações de leituras diárias. Tais planos favorecem a leitura da BÃblia toda em um ano. Esse é um excelente método para aqueles que são mais dispersos e precisam de uma orientação mais especÃfica e firme.
Como metas, eis minha sugestão. Leia os Salmos e o Novo Testamento uma vez a cada seis meses e o Velho Testamento, uma vez por ano. Ao terminar, comece tudo novamente; o processo de conhecimento da Palavra é infinito, e não apenas isso. Saiba que, para conhecer a Escritura em profundidade, somente a leitura é insuficiente. Você precisa dar o passo seguinte que é estudar a Palavra de Deus.
Desenvolva as habilidades de estudo
O estudo eficiente da BÃblia compreende o desenvolvimento continuado de três habilidades:
- Observação. O discÃpulo busca compreender, em detalhes, o que o texto diz.
- Interpretação. O discÃpulo busca compreender, em detalhes, o que o texto significa.
- Aplicação. O discÃpulo busca compreender, em detalhes, qual o aspecto prático do texto, como o texto se aplica à sua vida.
Faça as perguntas importantes
A prático de estudo da BÃblia é, de forma bem simples, a arte de fazer perguntas inteligentes. É precioso “dialogar com os textos”, questionar as minúcias. As respostas à s perguntas certas produzem esclarecimento e conduzem à maior compreensão dos conteúdos estudados. O estudo envolve seis perguntas:
- Quem? Quem fala ou faz? Essa pessoa está falando para quem ou a respeito de quem. Essa pessoa está fazendo algo para quem? Quais são os principais personagens?
- Quê? Qual o assunto? De que trata o capÃtulo? Qual a doutrina? Quais as instruções transmitidas?
- Onde? Onde aconteceu ou acontece esse fato? Onde está escrito isso? Em que contexto está situado este dito ou relato (o que o autor escreve antes e depois dessa passagem, em que livro está situado esse ensino ou fato)?
- Quando? Em que época isso aconteceu? Em que momento isso se deu? Quando esse texto foi escrito?
- Como? Como isso aconteceu ou vai acontecer? Como se fez isso? Como esse ensino foi confirmado?
- Por quê? Por que esse fato ou pessoa estão sendo mencionados? Por que isso aconteceu ou vai acontecer? Por que nessa ocasião? Por que envolve essa pessoa?
Faça as perguntas transformadoras
As seis perguntas indutivas objetivam clarificar o entendimento. Assim que a compreensão básica é obtida, é preciso ainda fazer outras cinco perguntas, voltadas para a transformação de caráter. O discÃpulo de Cristo não estuda a BÃblia apenas para obter informações; ele estuda para ser transformado pelo poder do EspÃrito Santo.
Eis as perguntas de transformação:
- 1. O que o texto ensina sobre a pessoa de Deus e o modo como ele se relaciona comigo?
- 2. O que o texto ensina sobre a natureza humana — o que ele ensina sobre o meu próprio coração?
- 3. Quais as ordens de Deus para a minha vida, existentes nesse texto?
- 4. Quais os pecados que esse texto me revela e que preciso confessar/deixar/ser liberto?
- 5. De que modo o texto me apresenta Cristo e suas bênçãos? Como eu posso amá-lo mais e desfrutar de suas bênçãos?
Anote, anote, anote!
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Você deseja estudar a BÃblia? Então prepare-se para começar a anotar. As anotações podem ser em um caderno, em folhas avulsas ou de fichário ou mesmo em um bloco de notas do computador. Observe, no entanto, que você precisará fazer muitas inscrições pertinentes nas páginas de sua própria BÃblia.
Deus não nos chama para comer um sanduÃche gorduroso à s pressas, ele prepara, para nós, uma nutritiva mesa.
À medida em que você for estudando e fazendo as perguntas sugeridas acima, anote palavras-chave junto ao texto lido. Por exemplo, na página ao lado, junto ao texto de Mc 14.8 eu anotei “presciência; onisciência”, indicando dois atributos de Jesus Cristo que, de acordo com meu entendimento, são revelados na passagem (pergunta 01 de transformação). Junto ao v. 31 eu escrevi “autoconfiança; voto precipitado”, indicando aspectos da natureza humana — minha natureza! — (pergunta 02 de transformação).
Além de anotar, use lápis coloridos (evite as canetas marca-textos, que vazam na páginas das BÃblias) para destacar palavras que se repetem (viu como sua atenção foi chamada para essa última frase?). No exemplo que estamos examinando, pintei de roxo a expressão “está escrito” (versÃculos 21 e 27). Os autores bÃblicos não repetem palavras por acaso. Marcos desejava que os leitores do evangelho compreendessem que a morte e ressurreição de Cristo não aconteceu fortuitamente; pelo contrário, tudo ocorreu para que se cumprissem algumas profecias do Velho Testamento, demonstrando que Deus possui o controle do Plano da Redenção e de toda a história. Quando encontrar termos que se repetem, fique de olho neles e — se você for como eu — marque-os com cores.
Observe ainda os tÃtulos das seções. No exemplo é destacado o tÃtulo do bloco de idéias existente nos versÃculos 10 e 11, “O pacto da traição”. Esses tÃtulos não fazem parte do texto original; são sugestões estabelecidas pela equipe de tradução ou mesmo pelos editores das versões bÃblicas. Você não deve estar preso a tais tÃtulos mas eles podem ajudá-lo na compreensão dos conjuntos de fatos e argumentos da passagem.
Veja que, abaixo dos tÃtulos, encontram-se referências de outras passagens bÃblicas. Essas são as referências paralelas, que indicam onde aquela história ou dito é repetida. É instrutivo ler tais referências a fim de obter um quadro geral daquele fato ou ensinamento.
Fique ligado, ainda, no rodapé das páginas de sua BÃblia. Elas estão cheias de outras referências e explicações de palavras. As referências indicam paralelismos teológicos e as explicações informam sobre significados de termos que são estranhos à cultura brasileira. Como você vê, quando se deseja estudar as Escrituras, é preciso estar atendo aos mÃnimos detalhes.
Por fim, eu gosto de traçar os conjuntos de idéias principais — as seções que abarcam fatos e argumentos das passagens. Eu afirmei há pouco que os editores bÃblicos buscam fazer isso estabelecendo tÃtulos para determinados blocos, mas é bom, à s vezes, dispensar essa “ajuda” dos editores e espremer um pouco o próprio cérebro, a fim de perceber o modo como o EspÃrito Santo orientou a redação de cada texto.
Conclusão
Ufa, você está percebendo que estudar a BÃblia exige tempo e dá trabalho! Sim, é verdade, mas não existem atalhos.
Sabe aquele seminário que estão divulgando por aÃ, aquele que promete revolucionar sua vida em três dias, naquele hotel cinco estrelas no litoral? Sabe aquele “encontro tremendo” para o qual estão lhe convidando, aquele que vai confirmar a sua salvação, mudar o seu caráter, libertá-lo dos ataques demonÃacos e salvar o seu casamento em um fim de semana? Sabe aquele culto que está sendo transmitido pela televisão, em que há uma oração poderosa, com milhares de pessoas recebendo a intercessão do apóstolo do momento? Sabe aquelas promessas de bênçãos, prosperidade, vida boa e alegria abundantes, disponÃveis desde que você participe de uma humilde campanha, doando seu salário e imóveis — negociáveis em carros ou cheques pré-datados? Fuga dessas ofertas de bênçãos de curto prazo. Deus não nos alimenta com fast food (comida rápida); ele nos sustenta e abençoa através da leitura, estudo e meditação da Palavra. É difÃcil ir ao mercado, comprar verduras, lavá-las, picá-las e preparar uma salada; é complicado temperar e rechear uma carne, assá-la e cortá-la em fatias. E depois que tudo estiver pronto, imagine a dificuldade de por uma mesa, dispor sobre ela os talheres, transportar os alimentos para vasilhas adequadas e então sentar-se, junto com os convidados, para comer uma boa refeição. Preparar tudo isso é complexo, exige atenção aos detalhes e toma muito tempo. No entanto, é isso que Deus nos oferece na leitura e estudo da BÃblia. Ele não nos chama para comer um sanduÃche gorduroso à s pressas, ele prepara, para nós, uma nutritiva “mesa” (Sl 23.5).
Deus verdadeiramente nos concede “recompensa”. O resultado de médio e longo prazos do estudo e prática da BÃblia é o sucesso (Sl 1.1-3). Não segundo a avaliação da cultura globalizada, mas o sucesso de acordo com os critérios de Deus. O desfrute desse sucesso, porém, decorre do cultivo da devoção, porque, essencialmente, cristianismo é vida com Deus.
JAN

