A propriedade divina

Pastoral

“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu”. Esta é a afirmação convicta feita pela esposa descrita em Cantares 6.3 e reflete com exatidão a relação do Senhor com a igreja, caracterizada por afeto proveniente do amor incondicional a nós dispensado por Deus e de nossa resposta de amor, ainda que imperfeita, ao nosso Criador e Redentor.

Este senso de mútuo pertencimento é reforçado na liturgia e na doutrina. Liturgicamente, reafirma-se a aliança nos cânticos e orações. Doutrinariamente, relembrando as promessas feitas a Abraão e Jacó, bem como as revelações dadas no Sinai, confessamos que o Senhor é o “Deus de Israel”, o “nosso Deus”, enquanto nós somos o seu povo, separado dentre as nações para a sua glória (Êxodo 19.5, 20.2; Salmo 100.3; 1 Reis 17.1).

Entenda-se que compreender nossa relação com Deus nestes termos é bíblico e por conseguinte muito bom. Mas exatamente aqui reside um perigo: confundir as definições e experiências de pertencimento com um certificado de propriedade. Este foi um dos erros cometidos por Israel. Deixaram de enxergar no título “o Deus de Israel” uma referência à aliança, entendendo que Deus era uma espécie de divindade tribal. Para eles, o Senhor pertencia exclusivamente a Israel e não tinha nenhuma bênção para as outras nações. Entendiam que quando Deus agia entre os outros povos, era somente para favorecer Israel como seu povo “predileto”. Sendo assim, os israelitas não atentaram para as necessidades espirituais daqueles que os cercavam.

A aliança nos traz as bênçãos da adoção e inserção na família da fé. Além disso, ela nos revela o Deus gracioso para com todo o universo, um Senhor que elege seu povo para o testemunho, com o objetivo de tornar-se conhecido nos “confins da terra” (Isaías 42.1-4, 49.6; Mateus 28.18-20; Atos 1.8; Romanos 8.19-23; Colossenses 1.18-20; Apocalipse 7.9-10).

Hoje relembramos que fomos salvos para proclamar que Deus tem um propósito de salvação que abrange todos os grupos étnicos do planeta e que esta proclamação define os próprios limites da história (Mateus 24.14). A igreja não é proprietária de Deus; ela o serve obedientemente, cumprindo, com perseverança, a missão que lhe foi designada. Ela só se sente realizada ao ver que Deus está se tornando o “Deus dos outros”, abraçado por pessoas antes alheias ao evangelho, mas que agora podem também afirmar que pertencem a Cristo, e que Cristo pertence a elas, pela fé.

Publicado no Boletim 008.

Categorias: PastoraisTags:

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *