Teologia se faz de joelhos

Teologia se faz de joelhos

Renato começou a estudar teologia. Empolgado com o ambiente acadêmico de um seminário, aproximou-se dos professores que demonstravam maior erudição e “espírito livre” para pensar e criticar. Aos poucos, passou a falar de maneira diferente, e a usar palavras difíceis nas reuniões da igreja. Incompreendido, julgou que os irmãos de sua comunidade não estavam a sua altura intelectual. Aos poucos, passou a tratar a Bíblia de maneira diferente, não mais apreciando o seu conteúdo, mas apenas tentando classificar os textos, encaixar em teorias, e descobrir questões polêmicas. O prazer da presença de Deus foi substituído pela ansiedade em busca de conhecimento e auto-afirmação como acadêmico.

* * *

O esforço acadêmico não é ruim. Muito do que possuímos hoje em termos de tradição e conhecimento adquirido, veio através do trabalho dedicado de pesquisadores que se debruçaram sobre o texto bíblico. Em alguns casos, tais pesquisas foram “forçadas” por uma demanda urgente: As heresias que surgiam nos primeiros séculos demandavam maior e melhor elaboração das doutrinas cristãs. O trabalho de J. Gresham Machen no Novo Testamento foi impulsionado pela sedutora e perigosa teologia liberal. A “codificação da fé” em credos e confissões foi estimulada pela necessidade de defender a igreja, apresentar uma descrição sistematizada dos conteúdos da crença protestante, e dar forma e consistência ao grupo cristão em etapas iniciais de estruturação. Em todos esses casos, o trabalho teológico foi realizado como serviço à igreja, e como instrumento de adoração ao Senhor. A tarefa da teologia é apresentar a revelação bíblica com fidelidade e clareza, a fim de que Deus seja conhecido e adorado.

Nem sempre isso funciona. O conhecimento seduz, e não é difícil notar estudantes de teologia que deixam de lado a dimensão do serviço e adoração, e passam a ver o estudo como fim em si: Vivem de sua linguagem excessivamente técnica e obscura, afastam-se dos demais irmãos, e perdem o prazer da apreciação bíblica, por considerarem o texto sagrado mero objeto de pesquisa, e não a revelação de Deus.

Para uma relação saudável com os estudos teológicos, precisamos ver e ouvir os bons modelos. Parte essencial de nossa pesquisa em teologia deveria ser separada para estudar a biografia dos teólogos que vieram antes de nós. Seríamos desafiados pela erudição e piedade dos puritanos, pela inclinação pastoral de Calvino, pela disciplina de Tomás de Aquino e pelo amor de Agostinho. Todos merecem ser estudados, a fim de enriquecermos não apenas o nosso conhecimento teológico, mas também nossa maneira de “fazer” teologia.

Rembrandt, São Paulo na prisão. 1627.

Os modelos por excelência, porém, são providenciados pela Escritura. Apenas o exemplo de Paulo basta para ilustrar o ponto. Na carta aos Romanos, o apóstolo faz o seu melhor em produção teológica: traça a sua tese fundamental no início do texto (Rm 1.16–17) — o evangelho é o poder de Deus para a salvação — , e começa a descrever os pontos de sua argumentação, que vão desde a universalidade do pecado à justificação providenciada por Jesus. Paulo apresenta aspectos importantes da santificação e da ação do Espírito, e então passa a tratar da soberania de Deus na salvação (caps. 9—11). Para alguns, este seria um trabalho tão árduo quanto árido. Identificar e descrever teologicamente a ação de Deus em juízo, justificação, santificação e eleição pode parecer algo excessivamente técnico. Mas o modelo que Paulo nos apresenta não funciona assim. Primeiramente, as doutrinas são percebidas dentro da moldura que observa o Criador como alguém pessoal. Semelhantemente, os pontos apresentados não são percebidos de maneira estática e distante, mas com dinâmica e proximidade: O Deus pessoal age hoje na vida do seu povo.

A teologia produzida a partir do engajamento pessoal com o Deus que se revela leva o pesquisador a se curvar diante de tão excelentes verdades. É assim que o apóstolo Paulo, após seu meticuloso arrazoado, transborda em adoração:

Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?” Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém (Rm 11.33–36, NVI).

 

Teologia se faz de joelhos, por se tratar, antes de tudo, de um relacionamento com o Deus revelado, mas também por produzir no estudioso a perplexidade daqueles que encontram o Eterno. Ninguém fica ileso diante da autorrevelação de Deus.

Sem comentários

Postar Comentário