Abrangência, atribuição, pré-requisitos e recursos da missão

Abrangência, atribuição, pré-requisitos e recursos da missão

1 Entrementes, chegaram à outra margem do mar, à terra dos gerasenos. 2 Ao desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um homem possesso de espírito imundo, 3 o qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém podia prendê-lo; 4 porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. 5 Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras. 6 Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, 7 exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes! 8 Porque Jesus lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! 9 E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. 10 E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país. 11 Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos. 12 E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. 13 Jesus o permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada, que era cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram. 14 Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos campos.
Então, saiu o povo para ver o que sucedera. 15 Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram. 16 Os que haviam presenciado os fatos contaram-lhes o que acontecera ao endemoninhado e acerca dos porcos. 17 E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles. 18 Ao entrar Jesus no barco, suplicava-lhe o que fora endemoninhado que o deixasse estar com ele. 19 Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti. 20 Então, ele foi e começou a proclamar em Decápolis tudo o que Jesus lhe fizera; e todos se admiravam. Marcos 5.1-20.

Pregado na IPB Rio Preto em 15/06/2014, Culto Missionário, às 19h30.

Introdução

Nosso objetivo nesta noite é olhar para Marcos 5.1-20 de uma perspectiva missionária. Hoje nos lembramos dos irmãos e irmãs dos campos distantes, a fim de orar e contribuir com eles.

Nós retornaremos duas vezes a Marcos 5.1-20. Isso quer dizer que as lacunas na exposição de hoje, se Deus permitir, serão preenchidas nas próximas duas semanas. Marcos 5.1-20 é um texto difícil, por diversas razões. Surge uma primeira dificuldade quando comparamos o relato de Marcos com o de Mateus e notamos que Marcos menciona um endemoninhado, ao passo que Mateus fala de duas pessoas possessas (Mt 8. 28).

Há algo enigmático no modo como Jesus liberta este endemoninhado. Diferentemente de todas as outras ocasiões em que lidou com pessoas possessas, o Redentor não apenas ordena ao espírito imundo que saia daquele homem, mas também pergunta o nome do demônio. Depois, surpreendentemente, Jesus atende a uma súplica do espírito mau, permitindo que ele saia do homem e entre em uma manada de porcos.

Há um mistério também na forma como este espírito imundo interage com o Senhor da glória, primeiro, buscando intimidar Jesus; depois, prostrando-se aos seus pés; daí, tratando-o com desprezo; logo adiante, revelando pavor e medo de Jesus e, por fim, suplicando algo a Jesus.

Quarta dificuldade do texto. A possessão demoníaca e morte da manada de porcos. Por que aquilo ocorreu? Por que Jesus Cristo permitiu aquilo?

Por fim, uma quinta dificuldade: Eu estou sendo bombardeado pelas trevas simplesmente porque irei pregar Marcos 5.1-20. As realidades espirituais que serão expostas nestes sermões são suficientes para arrancar você de sua condição de morto e escravo para uma condição de vivo e livre. Destinos eternos são definidos a partir de nossa reação a Marcos 5.1-20.

Daí, minha convicção de que provavelmente você teve coisas nesta semana, e quem sabe, hoje mesmo, que o tornam indisposto para ouvir esta pregação. Nesta semana eu fui tomado por um estado viral que me impediu de comparecer à vigília de sexta-feira. Abatimentos diferenciados acometeram outras pessoas da igreja. Uma espécie de anestesia moral ou torpor está tomando conta de alguns de nós, ao ponto de deixarmos de lado coisas básicas de nosso compromisso com Deus (chegar no horário nas atividades, gravar e publicar no site os sermões, desligar o ar condicionado quando o trabalho termina, acionar o alarme depois de fechar a igreja, coisas do cotidiano que nunca tinham acontecido antes). Uma espécie de névoa espiritual recai sobre a igreja exatamente depois de um mês de consagração terminado com jejum. Algo ocorre nos bastidores espirituais. Por isso, eu peço encarecidamente a você, que ore — por você mesmo, por mim, pelo Pr. Thiago, pela missionária Rosa, pelos oficiais e líderes, por nosso seminarista Luiz Felipe, pelos casais, pelas crianças, pelos pré-adolescentes, adolescentes e jovens, pelos adultos, pelos idosos, pelos visitantes e frequentadores e por toda nossa igreja. Nós estamos começando a ser mais frequentemente mencionados no inferno. E o incômodo cresce quando nos aproximamos de Marcos 5.1-20.

O que eu quero dizer com isso? Preste atenção em Marcos 5.1-20. Preste atenção hoje. E preste atenção na semana que vem. E preste atenção na semana seguinte. Se você não puder comparecer aos cultos nos quais estes sermões serão pregados, ouças as gravações no site da igreja. Eu sei que estas serão as semanas da Copa do Mundo 2014, mas repito, preste atenção! Nesse clima de Copa do mundo, fique de olho nas estratégias do “time adversário” de nossa alma. Nossos opositores espirituais desejam nos manter inofensivos. Eles querem que você seja saturado de informações futebolísticas e não consiga interessar-se pelas informações da Bíblia. Assim, você será paralisado por indisposições interiores, de modo a não prestar atenção, não compreender, não trazer para o coração, muito menos praticar o ensino contido em Marcos 5.1-20. O que fazer? O que fazer? Preste atenção em Marcos 5.1-20.

O contexto da passagem é de retomada da implantação do reino. Todo este bloco, de Marcos 4.35—5.43 registra quatro “conquistas”: Vitória sobre o perigo (Mc 4.35-41); vitória sobre os demônios (5.1-20); vitória sobre a doença (5.21-34) e vitória sobre a morte (5.35-43).[1] Nesse processo todo, Jesus lida com hostilidade infernal — todos os poderes do inimigo se levantando contra ele. Ele termina de enfrentar um mar furioso e, mal coloca o pé na terra, vê-se diante de um homem furioso. No capítulo 4 ele ensina sobre o reino que vem e vai expandir-se. Ele garante que os discípulos podem confiar em sua promessa, como Senhor do Reino, e na sua mensagem como instrumento poderoso e suficiente para libertar as pessoas. Daí vem a tempestade e agora este geraseno (ou “gadareno”, ARC).

O que faremos hoje é tentar, a partir deste texto, aprender algo sobre a abrangência da missão (até onde a missão vai); depois, a atribuição da missão (O que temos de fazer na missão); por fim, quais são os requisitos e recursos da missão.

I Quanto à abrangência, a missão alcança pessoas nos lugares mais distantes, desagradáveis e inóspitos

Jesus termina de ensinar sobre o reino; agora ele pratica o ensino. Ele entra no barco e ordena aos discípulos que naveguem até o outro lado do Lago (Mc 4.35). Ao fazer isso ele rompe diversas barreiras ou distâncias. Primeiro ele vence uma distância geográfica. Lemos que ele chega na “terra dos gerasenos” (ou gadarenos, ARC; v. 1). Pra nós isso não parece significar muito, mas, para o Evangelho, esse fato é importante. É a primeira vez que Jesus entra em território gentílico (uma terra de pessoas que não eram de nacionalidade judaica). Até agora seu ministério era restrito aos judeus. Especificamente no Evangelho Mateus, Jesus afirma que foi enviado “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15.24). Agora ele vai até um ponto distante. O v. 20 registra que o resultado da ministração de Jesus é o evangelho sendo conhecido em Decápolis — dez cidades gregas espalhadas naquelas imediações. O evangelho se expande geograficamente. O reino de Deus tem a ver com isso. Daí este culto missionário.

Mas não apenas isso. O reino de Deus vence distâncias sociais ou humanas. O v. 2 nos informa que “veio dos sepulcros […] um homem possesso de espírito imundo”. Uma pessoa com características repugnantes e vivendo em situação lastimável, desagradável e tresloucada. Os que a conheciam tentavam inutilmente amarrá-la ou prendê-la com correntes, v. 3-4. A partir do relato paralelo de Mateus, entendemos que aquele homem era não apenas desagradável, mas também perigoso — “ninguém podia passar por aquele caminho” (Mt 8.28). Jesus vence essa distância humana. Ele vai até o indivíduo que é rejeitado por todos os demais, a pessoa considerada execrável e repugnante. Jesus vai até esta pessoa. Missões tem a ver com isso: Vencer distâncias humanas.

Além disso, lemos no v. 11 que “pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos”, o que aponta para uma distância religiosa e cultural. Para o judeu, o porco é um animal imundo. Isso é assim por causa da lei do AT (Lv 11.7; Dt 14.8). Judeus ortodoxos jamais criariam porcos. Jesus rompe esta barreira cultural e religiosa a fim de alcançar estas pessoas.

Aprendemos que a obra de missões produz um movimento na direção de outras pessoas. O que chamamos de obra missionária nada mais é do que mover-se na direção de outras pessoas. Isso deve nos desafiar muito. Jesus termina de ensinar sobre o reino (Mc 4.1-34). É possível que, ao fim daquele dia os discípulos pensassem “que dia agradável; um dia de aula com o Mestre dos mestres! Agora vamos comer alguma coisa e descansar, meditando no que aprendemos”. Mas Jesus lhes diz: “Entrem no barco”. E eles quase morrem na viagem (Mc 4.35-41). E quando tudo se acalma e os discípulos suspiram aliviados: “Que susto! Finalmente, terra à vista!” Mal pisam em terra e surge este homem (ou dois homens, cf. Mt 8.28). Pensemos em nossa indisposição natural: “Ah não, Deus, estamos cansados demais! Agora nós temos de lidar com este homem?! Não nem alguém culto que nos pedirá explicações sobre as teorias do reino que terminamos de aprender, mas um doido de marca maior… a gente tem de lidar com este homem mesmo, considerado um traste, um monstro, por seus próprios conhecidos?!” Obra missionária nada mais é do que movimento na direção de pessoas.

Igreja missionária é aquela que se movimenta na direção de pessoas. Igreja missionária se preocupa mais com gente do que com instituição. É igreja que entende que o chamado de Jesus se cumpre assim: Ele nos alcança e, em seguida, nos comissiona para alcançarmos outras pessoas. Simples assim. Esta é a abrangência da obra missionária. E isso não é só lá na Zâmbia, mas começa aqui. Há alguém na igreja que você considera desagradável? É aqui que começa a missão. Há um irmão da igreja ou um parente seu que você considere inóspito, que o recebe mal — já o recebe enfrentando e brigando? Vá até esta pessoa. Comece a fazer missão, porque missão tem a ver com movimento na direção de pessoas.

O cristão parado não realiza a missão. Igreja parada não realiza a missão. Eis o primeiro princípio.

Agora precisamos compreender alguma coisa relacionada à atribuição da missão. Deus nos incumbe do que? Este Evangelho nos ensina que…

II Quanto à atribuição, a tarefa da missão é confrontar as trevas e libertar pessoas para a luz do Senhor

Os v. 8, 13 e 15 nos informam que o geraseno foi poderosamente liberto pelo Senhor Jesus Cristo. Nós retornaremos a este texto na próxima semana, checando alguns detalhes. Por ora, destaco, de modo geral, o estado deste homem geraseno, um homem tomado por uma força maligna impetuosa e ameaçadora.

Alguns teólogos do século passado olharam para esta passagem entendendo que os escritores do NT, por não terem as informações médicas de nosso tempo, não sabiam discernir entre problema mental e endemoninhamento. Devido à falta de desenvolvimento científico, dizem, tanto Marcos quanto os outros evangelistas viam os doentes mentais como “possessos de espíritos malignos”. Sendo assim, este homem geraseno era, provavelmente, alguém com disfunções neurológicas ou emocionais. Este não é o caso dos Evangelhos. Os Evangelhos registram, em determinadas situações, pessoas “doentes” e, em outras, pessoas “possuídas por espíritos maus” (e.g., Mc 1.34; 3.10-11). Na semana que vem eu fornecerei alguns parâmetros para discernir se alguém está doente ou possesso. O texto de Marcos 5.2 diz que o geraseno era um homem “possesso de espírito imundo” (Mt 8.28 traz “endemoninhados” e Lc 8.27 traz “possesso de demônios”).

Qual é a solução para o problema deste homem? Estamos diante de um homem urbano — alguém que morara anteriormente em uma cidade, cercado de seus familiares (v. 19; cf. Lc 8.39). Agora, ele estava despedaçado! Ele sofre sozinho; chora em alta voz e pratica automutilação.[2] O que resolve o problema deste homem? Eis a solução: Cristo chega até ele e o liberta com sua Palavra. Ele é liberto por Cristo e pela Palavra de Cristo. Esta é a prática de Jesus. É isso que ele está fazendo desde o início deste Evangelho: Ele ensina, ele prega, ele cura e ele liberta — e faz tudo isso falando e ordenando. A Palavra de Jesus é poderosa. A Palavra de Jesus cura. A Palavra de Jesus liberta. A Palavra de Jesus salva. O trabalho de Jesus é o de trazer libertação às pessoas.

Os apóstolos compreenderam isso e também procederam assim. Vejamos o exemplo do apóstolo Paulo, especialmente o registro de At 26.16-18. Paulo defende-se diante do rei Agripa, informando que viu Jesus (At 26.15). Na ocasião, logo depois de ser convertido — após vislumbrar o Senhor da glória — Paulo recebeu o mandato da missão:

16 Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, 17 livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, 18 para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim (At 26.16-18).

Qual era a missão de Paulo? Libertar vidas das trevas para a luz do Senhor. Pra que esta igreja existe? Para converter pessoas das trevas pra luz, a fim de que recebam remissão de pecados e santificação em Cristo. A missão da igreja é levar a libertação poderosa de Deus às pessoas. É pra isso que a igreja existe. E é pra isso que você existe. “Mas, puxa, pastor! Eu pensei que eu existisse para desfrutar de Deus e suas bênçãos eternamente!”. Este, certamente é o resultado de nossa caminhada com Deus, mas, entre a conversão e a glorificação, nós temos de cumprir a missão.

Isso quer dizer que a missão da igreja é muito mais do que ação social ou humanitária. Isso outras instituições podem fazer, às vezes com muito mais competência do que nós. Significa também que a missão da igreja é muito mais do que trazer uma mera proposta filosófica — ficar debruçando-se em Filosofia ou mesmo Teologia como fins em si mesmas. Você ouvirá essa pergunta em congressos sobre missões, plantação e revitalização de igrejas: Qual é a estratégia missionária mais indicada? Pastores ouvem muito essa pergunta: “Pastor, como discernir a vontade de Deus pra minha vida? Devo casar? Posso comprar aquele terreno?”

Eis o propósito de Deus pra nós. Primeiro, que sejamos transformados. Aquele homem de Gerasa ou Gadara, naquele dia, foi transformado. Depois de transformados, que sejamos usados por Deus para transformar outras pessoas. Simples assim. Não se preocupe demasiadamente com outras coisas. Foque sua atenção nisso; priorize o reino. Seja transformado e seja instrumento de transformação de outras pessoas. Deixe tudo o mais com Deus; todas as outras coisas serão acrescentadas (Mt 6.33). Transformados por ação social? Transformados por uma Filosofia? Transformados pela pessoa de Jesus e pelo poder de Jesus, que chegam até nós pela Palavra de Jesus.

Libertação das trevas é a atribuição da igreja. O cristão que não reconhece a natureza sobrenatural disso não realiza a missão. Como eu serei usado por Deus para tirar pessoas das trevas? Se nós começamos a entender que esta tarefa é “loucura” (1Co 1.21), acima de nossa capacidade, começamos a entender missões. Começamos a entender porque os missionários mandam cartas todo mês pedindo “orem por nós! Orem por nós!”. Não basta abrir uma classe para discutir Teologia. Não basta simplesmente distribuir mais cestas básicas. Trata-se de libertar pessoas da trevas. Esta é a atribuição da missão.

Em terceiro e último lugar…

III O cumprimento da missão exige atenção a alguns pré-requisitos e uso de determinados recursos

Já caminhando para algumas aplicações, compreendamos que é impossível cumprir a missão sem atender a alguns pré-requisitos. Aprendemos isso pelo exemplo do próprio Senhor. Notemos, primeiramente, o amor para atravessar distâncias.

Jesus passara o dia inteiro ensinando. Ele estava cansado, tão cansado que dormiu no barco, em meio à tempestade! (Mc 4.38). Chegando à outra margem, eis que ele encontra aquela situação de lástima e dificuldade. Que amor pra atravessar distâncias! Era fim de dia, uma hora difícil. Repetindo o que foi dito em 27 de abril, Jesus atravessou o mar rumo a um destino hostil. “Era noite quando o Senhor e seus discípulos cruzaram o mar”.[3] Eles chegam naquele lugar no escuro. Aquele indivíduo endemoninhado, transbordante de fúria, chega até eles à noite. Nós já paramos pra pensar em quão assombroso e assustador é tudo isso? Jesus termina de ensinar e diz “cruzemos o mar; vamos até lá”. Amor pra enfrentar desgastes, pra alcançar pessoas.

Se você pensa que é possível fazer missões sem desgaste pessoal, você não compreendeu missões. Atravessar distâncias cansa, desgasta. Eu gosto de Watchman Nee quando ele diz que os cristãos não iluminam como lâmpadas elétricas, e sim, como velas — eles alumiam derretendo, desgastando-se. Tem de haver disposição, amor, pra alcançar pessoas. Exemplo do Senhor. Pré-requisito pra missão. Há igrejas sofisticadas, cheias de recursos, repletas de pessoas com boa capacitação ministerial, que não fazem nada por missões, simplesmente porque deixaram de amar pessoas. Outras igrejas humildes, simples, de gente econômica e financeiramente pobre, cumpre a missão, porque os crentes se juntam movidos por intenso amor aos perdidos — amor pra atravessar distâncias.

Eles conseguem olhar pros de fora com olhar terno, eles choram quando oram pelos perdidos. Enquanto não caminhamos e choramos, enquanto semeamos, não voltaremos alegres, com os feixes da colheita (Sl 126.5-6). “Por que a igreja não cresce pastor? Por que a igreja está estagnada pastor? Por que a igreja precisa de revitalização, pastor?” É porque falta amor na igreja; estamos acomodados, vivemos pra nossos umbigos. Esquecemo-nos de que as vidas sem Cristo estão se perdendo! Enquanto você não derramar a primeira lágrima pelas pessoas, você não vencerá distâncias para alcançá-las. Nós precisamos amar ao ponto de chorar mais (cf. Lc 6.21; 19.41).

Vejamos ainda, a disposição de Jesus para correr riscos e enfrentar rejeição. Queremos fazer missão sem correr riscos, mas Jesus quase morre na travessia do mar. Depois se depara com um homem violentíssimo, que, do ponto de vista meramente humano, podia fazer “picadinho” dele. E após fazer todo bem àquele homem, Jesus é rejeitado pelos moradores daquela cidade (v. 17). Disposição de Jesus para correr riscos e enfrentar rejeição. Este é o segundo pré-requisito pra missão. Se queremos servir a Deus motivados por pessoas, desejosos de ouvir “irmãozinho querido, como você é lindo, muito obrigado por ter nos ajudado tanto hoje!” ou ainda, se nos desanimamos quando lidamos com um problema ou sofremos antipatia, humilhação ou rejeição — se temos dificuldade em fazer coisas pequenas, como podemos ser instrumentos da missão? Se “perdemos o chão” ao lidar com mudanças de circunstâncias, como ser úteis para a missão?

Mais: Se não somos arrojados, como fazemos missão? Nós temos de recuperar o arrojo de nossos pais fundadores. Leiamos a história do presbiterianismo no Brasil. Busque informações sobre o ex-padre José Manoel da Conceição, primeiro pastor presbiteriano brasileiro. Ele comprometeu-se a pregar o evangelho em todas as cidades nas quais havia liderado paróquias da Igreja Católica. Ele plantou muitas igrejas e desfaleceu em uma de suas viagens, descalço e vestido com farrapos. Um servo de Deus que cumpriu a missão. Nossa geração, no entanto, não quer desconforto.

Como terceiro pré-requisito, Jesus exemplifica dependência de Deus. Isso lhe confere o principal recurso para o cumprimento da missão: Poder espiritual. Aqueles demônios tremem diante do Senhor da glória (v. 10). Jesus confronta o mal com todo o poder de Deus. Lemos em Atos sobre:

[…] como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele (At 10.38).

O recurso pra missão é o poder de Deus:

Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra (At 1.8).

Quase chegando ao fim, pensando ainda em pré-requisitos e recursos, olhemos para o exemplo do homem que foi liberto por Jesus (v. 15-20). Ele é encontrado “assentado, vestido, em perfeito juízo” (v. 15) e, conforme o complemento de Lucas, “aos pés de Jesus” (Lc 8.35). Em suma, ele foi totalmente transformado (ser transformado por Jesus é pré-requisito para a missão). Ele tem o desejo de seguir Jesus (v. 18 — desejar seguir Jesus é pré-requisito para a missão). No entanto, eis outro enigma: Jesus atende ao pedido dos demônios, mas não atende ao pedido do seu novo discípulo recentemente liberto (v. 12-13, 19). Pelo contrário, Jesus o manda de volta para a casa dele (v. 19).

Isso nos remete a outra passagem de Lucas, que registra a hospedagem de Jesus na casa de Marta e Maria (Lc 10.38-42). Marta é repreendida porque trabalhava demais; Maria é elogiada por ficar aos pés de Cristo, aprendendo e refestelando-se nele. Alguns usam esta passagem para apregoar uma vida de contemplação sem trabalho. Basta contemplar, sem trabalhar. É melhor ser “Maria” do que “Marta” — é o que dizem. Aquele homem recém-liberto certamente seria beneficiado se pudesse ficar uns meses sendo discipulado por Jesus, mas nosso Senhor o enviou imediatamente para a missão. Ficar grudadinho em Jesus ou cumprir a missão? O que é melhor, fazer o que fez Marta ou fazer o que fez Maria? O melhor é obedecer a Jesus em cada contexto e circunstância! Haverá momentos em que nos reuniremos — como fazemos agora — para ser nutridos com a Palavra. Depois, temos de servir lá fora.

Se você é um crente normal, você gosta do momento devocional. Você gosta de ler, estudar e meditar na Bíblia. Você gosta da comunhão com o Senhor. Isso também aconteceu com alguns discípulos na transfiguração, mas o Senhor ajudou-os a compreender que tinham de descer do monte a fim de cumprir a missão (Mc 9.2-8). O culto está ótimo, mas nós temos de entrar na segunda-feira, atravessar a terça-feira e, no restante da semana, ser instrumentos da missão.

Prosseguindo, aquele homem obedeceu a Jesus e pregou o evangelho não somente em sua casa, mas em todas as cidades da Decápolis (v. 20 — obediência a Jesus é pré-requisito para a missão). O ex-endemoninhado de Gerasa precedeu o apóstolo Paulo e tornou-se o primeiro missionário do NT aos gentios.

Este homem se tornaria o primeiro missionário gentio. Enquanto entre os judeus, Jesus ordenou silêncio (1.34,44; 3.12; 8.30; 9.9,30), […] no território pagão de Decápolis, a preparação do solo para a futura missão da igreja poderia começar.[4]

Eis os pré-requisitos e recursos para a missão. O cristão que não atende aos pré-requisitos nem usa os recursos de Cristo não consegue realizar a missão.

Estas são algumas coisas que chegam a nós, nesta primeira olhada em Marcos 5.1-20. Uma vez consideradas, nós podemos concluir.

Conclusão

Temos de praticar a missão firmados em bases bíblicas sólidas. Não é só um slogan ou campanha passageira, mas algo que brota da Palavra de Deus e alcança nosso coração — isso se encontra no cerne da Palavra de Deus pra nós.

Cumprir a missão é nossa principal finalidade nesta vida; não apenas um item na agenda da igreja. Apesar de considerarmos o terceiro domingo do mês como “Domingo Missionário”, todos os dias são da missão.

Quando nos dedicamos a esta tarefa, produzimos bom fruto espiritual e sentimo-nos satisfeitos. Cristão insatisfeito — que só reclama — é cristão que não ganha nenhuma alma pra Cristo, que não está comprometido com a missão. “O ar condicionado está muito frio; não está muito quente; a iluminação está fraca; colocaram lâmpadas demais; pintaram a parede de verde e tinha de ser azul, ou de azul e tinha de ser rosa; eu discordo da parede, farei um abaixo-assinado “antiparedal”. Isso é típico de quem não derrama uma lágrima sequer pelos perdidos!

Há igrejas se carcomendo porque os cristãos não se preocupam com as pessoas. Eu convido você a produzir frutos, a orar por uma lista de alcance, a desfrutar da alegria de ganhar pessoas para Cristo. Isso produz satisfação sem medida! Semelhantemente, cristãos que vivem remoendo seus próprios problemas não ganham almas. Nós precisamos de uma geração de cristãos satisfeitos, alegres e contentes. Isso acontece quando nós nos fixamos na missão.

Dito de outro modo, quando nós do dedicamos à obra missionária — a este serviço dirigido por Deus, nós encontramos a verdadeira alegria. Por isso terminamos lendo Salmos 100.1-2:

1 Celebrai com júbilo ao Senhor, todas as terras. 2 Servi ao Senhor com alegria, apresentai- vos diante dele com cântico.

Este não é apenas um texto litúrgico, mas um grande convite à nossa experiência diária. Amém.

Nota

[1] WIERSBE, Warren W. The Bible Exposition Commentary. Wheaton, IL: Victor Books, 1996, p. 124–129. v. 1.

[2] HENDRIKSEN, William. Marcos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 242. (Comentário do Novo Testamento).

[3] HENDRIKSEN, op. cit., p. 241.

[4] BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA (BEG2). 2. ed. revisada e ampliada. Barueri; São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil e Cultura Cristã, 2009, p. 1289. Grifo nosso.

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