O ministério desimpedido de Jesus: O chamado dos primeiros discípulos

O ministério desimpedido de Jesus: O chamado dos primeiros discípulos

O ministério desimpedido de Jesus: O chamado dos primeiros discípulos

16 Caminhando junto ao mar da Galileia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. 17 Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. 18 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. 19 Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. 20 E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus. Marcos 1.16-20.

Sermão pregado na IPB Rio Preto em 13/10/2013, às 9h.

Introdução

Primeiro ato do ministério de Jesus: pregação do reino. Até aqui, preparação. Agora, os primeiros atos de nosso Senhor. Neste trecho inicial, Jesus realiza seu ministério desimpedido, ou seja, sem qualquer oposição humana.

Jesus começa a chamar aqueles que serão denominados discípulos ou apóstolos. O cenário é a margem do mar da Galileia. O quadro se move rapidamente, a fim de nos mostrar coisas preciosas sobre o chamado de Jesus.

O que o texto lido nos ensina sobre o chamado de Jesus? Em primeiro lugar, entendamos que…

I O chamado de Jesus produz seguidores

16 Caminhando junto ao mar da Galileia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. 17 Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. 18 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. 19 Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. 20 E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus.

O chamado de Jesus produz discipulado. Marcos 1.16-20 é uma complementação valiosa de 1.14-15. Primeiro o arrependimento. Em segundo lugar, fé. Em seguida, seguir Jesus — discipulado vivo e simples.

“Vir após” ou “seguir após” corresponde a atentar para Jesus como condutor; ele define a direção ou caminho — é o líder, o patrão ou chefe. A palavra bíblica para isso é “Senhor”. Em segundo lugar, ele é o modelo a ser seguido. Daí a necessidade de contemplá-lo — “olhar firmemente para ele” todos os dias (Hb 12.2). Ser como ele é e fazer o que ele fez é nossa meta. Somos chamados a imitá-lo (1Co 11.1). Dito de outro modo, um discípulo de Cristo é um pequeno Cristo. Em terceiro lugar, “vir após” ou “seguir após” corresponde a “caminhar com” (notemos, no início do v. 16, “caminhando junto ao mar” — Marcos dará muito ênfase ao vocábulo caminhar”). Isso remonta a Gênesis 17.1: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito”, ou seja, implica em comunhão ou relacionamento íntimo e diário com ele.

Resumindo, o propósito de Deus é nos vincular a Cristo e nos tornar semelhantes a ele (Rm 8.29). Marcos está nos mostrando o que é o evangelho e qual o seu fruto.

II O chamado de Jesus produz “pescadores de homens”

16 Caminhando junto ao mar da Galileia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. 17 Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. 18 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. 19 Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. 20 E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus.

Como os seguidores de Jesus devem enxergar-se na relação com o Senhor Jesus? Como “pescadores de homens” (v. 17).

A significação dessas palavras é clara e inequívoca. Os discípulos de Jesus … deveriam trabalhar para arrancar os homens das trevas e do poder de Satanás, para leva-los a Deus. Eles deveriam esforçar-se para trazer os homens à igreja de Cristo, a fim de que pudessem ser salvos e não perecessem eternamente.[1]

Esta é uma declaração revolucionária. Pergunte a qualquer cristão “qual é o propósito de Deus para sua vida?” Você ouvirá muitas respostas diferentes: “Que eu seja santo”; “que eu seja um melhor marido, esposa, filho, filha ou irmão”; “que eu seja um adorador” ou, até mesmo, “que eu seja um homem ou mulher de Deus”. Dificilmente você ouvirá “o propósito de Deus para minha vida é que eu seja um pescador de homens”.

Pergunte a pastores: “Pastor, o senhor foi chamado para quê?” Você vai ouvir respostas assim: “para apascentar o rebanho”; ou “para o serviço da Palavra” ou coisas semelhantes. Dificilmente um pastor atual responder é “Deus me chamou para ser um pescador de almas”. No entanto, como afirma Ryle:

Pescadores de almas é o mais antigo título pelo qual o ofício ministerial é descrito nas páginas do NT. Esse título tem raízes mais profundas do que os de bispo, presbítero ou diácono. É a primeira ideia que deveria ficar impressa na mente de todo ministro do evangelho. Um ministro não é um mero leitor de rituais ou administrador de ordenanças. Compete-lhe ser um “pescador de almas”. O ministro que não se esforça por fazer jus a esse nome está enganado quanto ao seu chamamento.[2]

Isso se aplica à igreja como um todo. Para que a igreja existe? Qual é finalidade da igreja? Uns dirão “a igreja existe para glorificar a Deus”; ou “a igreja existe para divulgar a Reforma Protestante” ou quem sabe, “a igreja existe para conduzir pessoas para um estado de entusiasmo psicológico e prosperidade material”. E veja isso nos departamentos da igreja. Para que a SAF existe? Para que a UCP, UPA ou UMP existem? Por que o ministério de casais existe? Respondemos normalmente “por que em toda igreja presbiteriana devem existir as sociedades internas e ministérios de casais” ou ainda “para atender as necessidades das mulheres, das crianças, dos adolescentes e jovens — senão eles se dispersarão, ficarão em casa e se tornarão mundanos”. O correto seria dizer “a igreja existe para ser uma central de pesca de almas”; “a UCP, UPA, UMP ou SAF existem para pescar almas; nós reunimos os casais não para ficarmos mergulhados em nossos próprios problemas, e sim, para ganharmos almas”.

Eu trabalhei como evangelista, plantando uma igreja de 1987 a 1994. Depois servi como seminarista em outra igreja, de 1995 a 1996. Em seguida fui ordenado ao pastorado e trabalhei na mesma igreja, de 1997 a 2009. Agora, estou pastoreando esta igreja, desde janeiro de 2010. Isso soma 26 anos. Nestas quase três décadas de liderança pastoral, eu nunca ouvi de um presbítero ou líder de departamento, ao tratar de uma questão prática da igreja: “O que nós podemos e devemos fazer para ganhar almas?” Nos 16 últimos anos de vida conciliar — trabalhando em Conselhos, Presbitérios, Sínodos e Supremo Concílio da IPB, eu nunca vi um grupo de presbíteros regentes e pastores dedicando sequer uma hora para orar e chorar para que Deus nos dê almas; para que cumpramos nossa tarefa de sermos “pescadores de homens”. Gastamos milhares de horas e toneladas de papel e intensa energia mental e recursos financeiros administrando coisas que nós mesmos inventamos e deixando de lado a simplicidade do evangelho de Jesus: “Eu farei de vocês ‘pescadores de homens’”. Aliás, é cada vez mais frequente as igrejas locais enviarem para seminários jovens que jamais ganharam uma alma. A gente espreme os relatórios de uma igreja típica, ou de um presbitério típico, ou de um sínodo típico. Ao final de um ano, quantas pessoas conheceram ao Senhor Jesus Cristo por meio da igreja? Os jovens reclamam de que a UMP está desanimada; os adolescentes, de que os alojamentos do último acampamento não tinham ar condicionado; a UCP, de que não foi comprado um novo pula-pula. E poucos sentem agonia porque não estamos sendo “pescadores de almas”.

“Dá-me almas ou leve minha alma” — orava o grande pregador George Whitefield. O propósito histórico da igreja não é dar conforto a seus membros, e sim “pescar pessoas”, ou seja, ganhar almas. O exemplo da “igreja de lata” (Igreja de Antioquia). A igreja atual se tornou complicada e sofisticada e esqueceu-se de sua finalidade primordial.

Outro detalhe: Quando Jesus disse àqueles homens que eles seriam tornados “pescadores de almas?” Ele disse isso no momento em que os chamou. Eles não foram enganados. Souberam, desde o início, que seguir Jesus exigiria deles a paciência, a perseverança e o trabalho duro de um pescador. Eles iniciaram sua caminhada com o Redentor já sabendo que iriam trabalhar a fim de “pescar” almas. Isso deve ser ensinado aos alunos da classe de catecúmenos. Isso deve ser absorvido por todo crente.

Ser um crente evangelista, para os primeiros seguidores de Jesus, não era uma opção. Acreditar em Jesus não era uma escolha que se podia fazer sentado confortavelmente em um sofá. Choque: Nos evangelhos não existe a palavra missionário. Pelo menos com base nas palavras mencionadas nos Evangelhos, Jesus nunca pronunciou a palavra “missão”. Os termos da moda “missões”, “missionário” e “missional” não se encontram em nenhuma parte do NT ou AT. De fato, “Missionário” é uma palavra inventada pela Igreja Católica a partir da Idade Média.

Vamos colocar isso de outra forma. Imaginemos uma igreja de 600 membros. Então, quatro pessoas desta igreja se colocam diante das demais, afirmando que Deus as chamou para a obra missionária. E aí os membros da igreja, de modo geral, agradecem a Deus “obrigado Senhor, porque, em nosso meio, o Senhor levantou quatro missionários”. E agora a igreja assume um compromisso de oração e sustento com aqueles quatro pessoas e as envia aos seus respectivos campos. E a igreja publica em seu Boletim: “Nossa igreja possui quatro missionários”. Isso não é de todo ruim. Uma igreja que faz isso está à frente de muitas outras que não dão a mínima atenção aos perdidos. No entanto, eu preciso dizer que tal quadro — ter uma ou mais pessoas especialmente destacadas para o serviço missionário enquanto o restante da igreja permanece de longe, apoiando moral, espiritual e financeiramente, mas, do lado de cá, achando que os missionários são apenas os “enviados” — isso é uma grande anomalia. É antibíblico. É errado porque profissionaliza a vocação; os responsáveis por ganhar almas são apenas os obreiros remunerados. Uma igreja que sustenta missionários longe, mas cujos crentes locais não “pescam” almas está sugerindo que não quer sujar as mãos, ou suar a camisa, ou verter lágrimas, ou sangrar na carne a fim de ganhar almas — esta igreja está “pagando” para que os “missionários profissionais” — semelhantes a trabalhadores braçais — façam o serviço que cabe a todo o corpo de Cristo. Nós devemos manter obreiros “lá longe” ao mesmo tempo em que devemos ser “pescadores de homens” aqui, todo o tempo. Se não fizermos isso, ainda não assumimos, de fato, o lugar e tarefa de discípulos de Cristo.

Os Evangelhos não usam a palavra “missionário”. Os Evangelhos usam a palavra “discípulo”. E todo discípulo de Jesus deve ser um “pescador de homens”. Independentemente do temperamento, classe social, ocupação ou grau de instrução. Jesus chamou pessoas simples. E chamou-os para “pescar pessoas” — ganhar almas.

III O chamado de Jesus requer obediência imediata

16 Caminhando junto ao mar da Galileia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. 17 Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. 18 Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. 19 Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. 20 E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus.

O seguidor de Jesus Cristo se consagra a ele totalmente e obedece imediatamente. Cf. Hino 128 de nosso Caderno de Cânticos.

Tudo ó Cristo, a ti entrego, tudo, sim, por ti darei
Resoluto, mas submisso, sempre a ti eu seguirei

Tudo entregarei, tudo entregarei.
Sim, por ti, Jesus bendito, tudo deixarei


Tudo ó Cristo, a ti entrego, corpo e alma, eis-me aqui
Este mundo mau renego, quero dedicar-me a ti
Tudo ó Cristo, a ti entrego, que prazer oh meu Senhor!
Paz perfeita, paz completa, glória, glória ao Salvador

Logo depois de iniciar seu ministério de pregação, nosso Redentor chama estes quatro primeiros discípulos: Simão, André, Tiago e João (v. 16, 19). Ele os chama e o que acontece? Eles atendem imediatamente ao chamado. Deixam suas profissões, redefinem suas ligações familiares e rompem com suas antigas agendas. Isso é discipulado vivo e simples. Esta é a diferença entre o chamado geral ao Cristianismo — aquilo que chamamos de chamado externo — e o chamado vivo de Jesus. Este chamado vivo de Jesus é eficaz. Ele sacode nossas bases e nos arranca de onde estamos. Ele começa lá atrás, com arrependimento. Ele prossegue nos dando plena confiança no Redentor. Daí ele nos impulsiona a segui-lo e servi-lo. Totalmente. Imediatamente.

Marcos coloca isso nesta parte inicial de seu evangelho. Ele ainda está abrindo seu livro, nos mostrando tudo o que há porvir. Jesus está realizando seu ministério desimpedido. Ele está caminhando e chamando. E ele está sendo ouvido e seguido. Alguns homens estão deixando tudo o que são e têm a fim de andarem com este Senhor — este que desde o início de Marcos é chamado de Filho de Deus, que se identifica com os pecadores, que é ungido pelo Espírito Santo, que vence Satanás no deserto e agora prega uma mensagem radical. Ele é digno de ser reconhecido, ouvido e obedecido. E ele deve ser obedecido agora. E seu chamado redesenha a vida. As coisas não podem ser como antes. As rotinas são alteradas. O modo como nós nos compreendemos; o modo como nós nos sustentamos; o modo como encaminhamos nossas rotinas — tudo mudo muda. E tudo muda já. Sem adiamentos. Sem racionalizações.

Concluindo…

Este relato de Marcos 1.16-20 ilustra uma passagem do Evangelho de João (João 10.27-28). O chamado de Jesus requer ouvintes — é preciso ouvir sua voz antes de segui-lo: “27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço”. Em seguida, o chamado de Jesus requer uma resposta de obediência — nós devemos segui-lo: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (v. 27). O resultado abençoado disso é registrado no v. 28: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”. Dito de outro modo, Marcos 1.16-20 nos ensina que precisamos ouvir a atender o chamado de Jesus.

O chamado de Jesus nos concede uma tarefa. Chamado e tarefa são indissociáveis. Nós somos chamados a quê? A sermos “pescadores de homens”. Isso exige de nós empenho; esforço, cf. 1Coríntios 9.23-27. E ainda 1Coríntios 3.6-9 — plantar, regar, cooperar. Notemos a soberania e o poder de Jesus revelados neste texto. Quem chama? E que nos faz “pescadores de homens”? É ele, o gracioso Redentor.

Notas

[1] RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de Marcos. Reimp. 2011. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994, p. 10.
[2] RYLE, op. cit., loc. cit.

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