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Deus é por nós

No Salmo 56.9 lemos uma declaração digna de nota: “No dia em que eu te invocar, baterão em retirada os meus inimigos; bem sei isto: que Deus é por mim”. A confiança de Davi é destacada em um verso anterior: “Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer um mortal?” (Salmo 56.4).

Leio tais palavras e penso nas dificuldades cotidianas, nas enfermidades e nos lutos; oportunidades para confiar em Deus e exaltá-lo. Ele não tem nos abandonado, mas estado conosco, ajudando-nos no enfrentamento das tribulações.

É interessante neste Salmo que Deus não impediu Davi de passar pelo sofrimento; ele o socorreu no fundo do poço. Como seguidores de Jesus Cristo, não exigimos tratamento diferenciado: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16.33).

As tribulações desanimam. O desejo de todo pastor bíblico é caminhar com um povo cheio de vitalidade, no entanto, o dinamismo contínuo é uma fantasia. A igreja é uma família composta de pessoas sujeitas a intempéries e fraquezas. Ao mesmo tempo em que a comunidade do Novo Testamento era movida pelo poder do Espírito, ela era muito humana, tinha de alternar os ritmos para dar atenção aos feridos. Confirmava-se a prática do amor — os irmãos iam atendendo as necessidades uns dos outros (Atos 4.31-35; Gálatas 6.2). Na verdade este é um dos maiores milagres da graça na vida da igreja: pessoas se arrastando mas orando, contribuindo, trabalhando e adorando. Visito pessoas que não conseguem se levantar buscando forças em Deus e permanecendo firmes dia após dia. São irmãos e irmãs que podem dizer como Davi:

Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas inscritas no teu livro? (Salmo 56.8).

Isso é maravilhoso. Deus recolhe nossas lágrimas e as registra em seu livro. Realmente, em alguns momentos, não é fácil caminhar, mas a jornada se torna possível graças ao Senhor que atenta cuidadosamente para as nossas angústias e providencia, para cada um de nós, no tempo certo, o livramento.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 027.

Adoração e plenitude do Espírito

A vida cheia do Espírito Santo é o padrão bíblico para os discípulos de Jesus Cristo. O apóstolo Paulo transmite-nos essa verdade em forma de ordem: “enchei-vos do Espírito” (Efésios 5.18). O interessante é a ligação entre o enchimento do Espírito e a adoração: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 5.19-20).

A plenitude do Espírito Santo não combina com algumas posturas negativas da alma. Observe a ordem do argumento: fala edificante mais cânticos mais ações de graças é igual a vida cheia do Espírito. Onde a Terceira Pessoa da Trindade age, Cristo é destacado. Onde Cristo se destaca, ocorre transformação. Onde o Espírito reina, há manifestação de seu fruto.

A conversação edificante e adoração transparecem na vida do cristão. O indivíduo murmurador, que só destaca o lado ruim das coisas, que é ávido para registrar os defeitos de outros ou que se deixa abater e absorver pela insatisfação, deixa de desfrutar dessa bênção da plenitude espiritual. Caminhamos com Deus louvando, cantando e agradecendo, independentemente das circunstâncias. Enquanto fazemos isso, somos cheios do Espírito.

Experiências místicas impactantes, sinais e maravilhas, delírios emocionais e extravagância sensorial não são marcas da vida cheia do Espírito. O importante é o que está debaixo da superfície — um coração que se acalma diante de Deus, uma alma que aprende a confiar e agradecer. O que importa é o louvor que procede da consciência purificada no sangue de Cristo. O que vale mesmo é a capacidade de cantar mesmo quando se passa pelo vale mais escuro e profundo. O enchimento com o Espírito Santo pressupõe essa pedagogia da vontade, essa disposição para repetir, como o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu” (Salmo 42.5).

Eis a verdade da Escritura: a adoração relaciona-se com a vida plena. Olhemos para o nosso Redentor, adoremos o seu nome e caminhemos cheios do Espírito.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 026.

Deus opera apesar de nós

A avó do jovem Francisco nascera na Frígia e era de temperamento forte. Uma de suas frases preferidas era “quem está com pressa de morrer, que se enforque mais cedo!”. Muitos anos de passaram e aquele menino, que crescera ouvindo aquelas palavras, tornou-se pastor.

Anos depois ele foi convidado para pregar em uma igreja na Austrália, na qual congregavam sua cunhada e irmão. O culto prosseguia bem e ele subiu ao púlpito, a fim de enunciar a Palavra de Deus. Em um momento da mensagem, sem que notasse, repetiu o dito de sua avó ilustrando um argumento e prosseguiu no sermão, tranquilamente.

— Francisco, como você faz aquilo? Você não podia dizer aquelas palavras! — foi a primeira coisa que saiu dos lábios de sua cunhada, logo ao fim da reunião.

— O que eu disse? — perguntou o imaturo pregador.

— A frase sobre enforcar-se. Uma das irmãs da igreja suicidou-se há um mês por enforcamento, deixando marido e filhos.

O restante do dia foi dificílimo para Francisco. Ele se sentia mal e entendia que tinha de desculpar-se diante da igreja e, especialmente, da família que sofria com a perda da esposa e mãe. Na manhã seguinte, para sua surpresa, o próprio viúvo foi procurá-lo. O pregador não sabia o que dizer; tentou esclarecer que havia cometido um erro e pediu desculpas, mas o homem fez questão de que recebesse uma oferta, dizendo-lhe que estava muito agradecido.

— Pastor, minha esposa morreu há mais de um mês e, desde então, nem eu nem meus filhos conseguíamos falar sobre o assunto. Depois de seu sermão, chegamos em casa e finalmente começamos a falar. Nos abrimos e pudemos, pela primeira vez, chorar juntos, recebendo do Senhor uma graça maravilhosa.

Ouvi esta história do próprio Rev. Dr. Francisco Leonardo, em uma aula de um curso sobre liderança pastoral. Aprendi que Deus faz maravilhas a despeito de nós. Ele é especialista em produzir bênçãos mesmo a partir de algumas de nossas falhas mais humilhantes. Ele é Deus, somos servos por ele amados, supridos e graciosamente usados. Daí a necessidade de continuarmos dependendo dele. Ele é o Deus que opera apesar de nós.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 025.

Tempo seco

Deus tem me dado o privilégio de pastorear em cidades nas quais há períodos de baixa umidade do ar. Especialmente o outono e o inverno são propícios à tosse intermitente, dores de cabeça e dificuldades de respiração. Para alguns desaparece a energia: acordar de manhã torna-se um fardo, a cabeça parece pesar muitos quilos e os neurônios sinalizam funcionar em “marcha lenta”.

Penso na experiência de Israel a caminho de Canaã. Se o clima em algumas cidades do Brasil é ruim em determinadas épocas do ano, imaginemos a situação do povo de Deus durante aquela peregrinação. Foram quarenta anos debaixo de um sol escaldante. Leio também sobre a fuga de Elias e a tentação do Senhor Jesus, isolados no deserto por quarenta dias (1Reis 19.8; Mateus 4.1-2). Por último, vejo no Apocalipse a mulher, símbolo da igreja, que recebe asas como de águia e voa para o deserto, onde fica por algum tempo, guardando-se da vista de Satanás (Apocalipse 12.14). Caminhadas com Deus, no deserto. Depressão, tribulação e crescimento, no deserto. Tentação, proteção e vitória, no deserto.

Essas reflexões me consolam. Me ajudam a ver que Deus está conosco até nos meses mais secos. É bom saber que a sua misericórdia nos sustenta, levanta e fortalece para a batalha, mesmo quando estamos sem ânimo. É uma graça que nos enche de força que não é nossa, de alegria que não vem de nós, de coragem que desce dos céus: “dizei aos desalentados de coração: Sede fortes, não temais. Eis o vosso Deus [...]” (Isaías 35.4). A graça de Deus! Quem poderá entendê-la? Quem terá palavras suficientes para louvar ao Senhor, por sua graça?

Outra verdade preciosa é que Deus coloca “um caminho no deserto, e rios no ermo” (Isaías 43:19). Ele transforma o deserto em um oásis cheio de fontes, flores e frutos, tais com as redondezas do Hermom (Salmo 133.3). E isso ele faz não apenas com o Saara, com a caatinga nordestina ou o cerrado, mas também com os nossos corações ressecados.

São verdades como essas que me ajudam a “segurar a barra” nos meses secos. Talvez você não seja como eu, tão afetado pelo clima. Aos que passam por um período de aridez interior, eis a hora propícia para buscar ao Senhor. Ele atende gentilmente a todos os que lhe pedem auxílio.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 024.