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Deus opera apesar de nós

A avó do jovem Francisco nascera na Frígia e era de temperamento forte. Uma de suas frases preferidas era “quem está com pressa de morrer, que se enforque mais cedo!”. Muitos anos de passaram e aquele menino, que crescera ouvindo aquelas palavras, tornou-se pastor.

Anos depois ele foi convidado para pregar em uma igreja na Austrália, na qual congregavam sua cunhada e irmão. O culto prosseguia bem e ele subiu ao púlpito, a fim de enunciar a Palavra de Deus. Em um momento da mensagem, sem que notasse, repetiu o dito de sua avó ilustrando um argumento e prosseguiu no sermão, tranquilamente.

— Francisco, como você faz aquilo? Você não podia dizer aquelas palavras! — foi a primeira coisa que saiu dos lábios de sua cunhada, logo ao fim da reunião.

— O que eu disse? — perguntou o imaturo pregador.

— A frase sobre enforcar-se. Uma das irmãs da igreja suicidou-se há um mês por enforcamento, deixando marido e filhos.

O restante do dia foi dificílimo para Francisco. Ele se sentia mal e entendia que tinha de desculpar-se diante da igreja e, especialmente, da família que sofria com a perda da esposa e mãe. Na manhã seguinte, para sua surpresa, o próprio viúvo foi procurá-lo. O pregador não sabia o que dizer; tentou esclarecer que havia cometido um erro e pediu desculpas, mas o homem fez questão de que recebesse uma oferta, dizendo-lhe que estava muito agradecido.

— Pastor, minha esposa morreu há mais de um mês e, desde então, nem eu nem meus filhos conseguíamos falar sobre o assunto. Depois de seu sermão, chegamos em casa e finalmente começamos a falar. Nos abrimos e pudemos, pela primeira vez, chorar juntos, recebendo do Senhor uma graça maravilhosa.

Ouvi esta história do próprio Rev. Dr. Francisco Leonardo, em uma aula de um curso sobre liderança pastoral. Aprendi que Deus faz maravilhas a despeito de nós. Ele é especialista em produzir bênçãos mesmo a partir de algumas de nossas falhas mais humilhantes. Ele é Deus, somos servos por ele amados, supridos e graciosamente usados. Daí a necessidade de continuarmos dependendo dele. Ele é o Deus que opera apesar de nós.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 025.

Tempo seco

Deus tem me dado o privilégio de pastorear em cidades nas quais há períodos de baixa umidade do ar. Especialmente o outono e o inverno são propícios à tosse intermitente, dores de cabeça e dificuldades de respiração. Para alguns desaparece a energia: acordar de manhã torna-se um fardo, a cabeça parece pesar muitos quilos e os neurônios sinalizam funcionar em “marcha lenta”.

Penso na experiência de Israel a caminho de Canaã. Se o clima em algumas cidades do Brasil é ruim em determinadas épocas do ano, imaginemos a situação do povo de Deus durante aquela peregrinação. Foram quarenta anos debaixo de um sol escaldante. Leio também sobre a fuga de Elias e a tentação do Senhor Jesus, isolados no deserto por quarenta dias (1Reis 19.8; Mateus 4.1-2). Por último, vejo no Apocalipse a mulher, símbolo da igreja, que recebe asas como de águia e voa para o deserto, onde fica por algum tempo, guardando-se da vista de Satanás (Apocalipse 12.14). Caminhadas com Deus, no deserto. Depressão, tribulação e crescimento, no deserto. Tentação, proteção e vitória, no deserto.

Essas reflexões me consolam. Me ajudam a ver que Deus está conosco até nos meses mais secos. É bom saber que a sua misericórdia nos sustenta, levanta e fortalece para a batalha, mesmo quando estamos sem ânimo. É uma graça que nos enche de força que não é nossa, de alegria que não vem de nós, de coragem que desce dos céus: “dizei aos desalentados de coração: Sede fortes, não temais. Eis o vosso Deus [...]” (Isaías 35.4). A graça de Deus! Quem poderá entendê-la? Quem terá palavras suficientes para louvar ao Senhor, por sua graça?

Outra verdade preciosa é que Deus coloca “um caminho no deserto, e rios no ermo” (Isaías 43:19). Ele transforma o deserto em um oásis cheio de fontes, flores e frutos, tais com as redondezas do Hermom (Salmo 133.3). E isso ele faz não apenas com o Saara, com a caatinga nordestina ou o cerrado, mas também com os nossos corações ressecados.

São verdades como essas que me ajudam a “segurar a barra” nos meses secos. Talvez você não seja como eu, tão afetado pelo clima. Aos que passam por um período de aridez interior, eis a hora propícia para buscar ao Senhor. Ele atende gentilmente a todos os que lhe pedem auxílio.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 024.

Descanso e fé

A graça de Deus é experimentada singularmente no descanso. A máquina é desligada, a produção é deixada de lado e a função torna-se irrelevante. O descanso é para apenas ser — e enquanto somos, tornamo-nos mais densos, estáveis e capacitados a responder à pergunta “quem sou eu?”.

O descanso é um círculo de sanidade — a falta de seu desfrute é danosa à inteireza da alma. Assim como discos rígidos de computador, os seres humanos vão se fragmentando à medida em que trabalham. O resultado é desgaste, lentidão e falha na execução dos processos. É preciso tirar um dia para a reunião organizada das partes, a fim de garantir um novo período de trabalho eficiente. É assim com a inteligência digital, é assim com a inteligência humana. Deus estabeleceu o descanso para esta reorganização, um dia dentre sete para nada fazer, somente adorar (Gênesis 2.1-3).

É difícil, mesmo para a religião, vincular descanso e adoração. Adorar é reconhecer os atributos de Deus e declarar nossa finitude, algo que vai muito além da participação humana na liturgia dominical. Na verdade, o instante de culto é a culminação de um processo que iniciou-se antes: a mente foi liberada, digerimos, vagarosamente, a Escritura, nos deitamos, dormimos, levantamo-nos sem pressa, comemos com tranquilidade, enxergamos os detalhes da criação (e isso inclui as pessoas) e investimos tempo em oração e privacidade saudável (é assim que “ouvimos” a Deus). Qualquer coisa diferente disso, seja atividade aparentemente importante (até mesmo religiosa) ou desejável como entretenimento, é mero trabalho.

Descansar é, literalmente, humilhar-se, é aprender a depender. O descanso é um freio às realizações, uma indicação de que compreendemos que não somos deuses e que o mundo prossegue sem nós. Eis a humilhação: a empresa continua se pararmos um dia na semana; o serviço acumulado do escritório, representado pela pilha de papéis depositada na caixa de pendências, estará sempre lá, semana após semana, mês após mês, ano após ano — e certamente, depois de nossa morte. Nenhum empreendedor quebrará por guardar o dia de descanso, pois, se por um lado somos importantes, por outro, somos irrelevantes. Quem não descansa se ilude imaginando ser a potência que mantém as coisas funcionando. Está sempre pronto a tomar providências, esquecendo-se de que é sustentado pelo Senhor da Providência (Salmo 127.2).

Por isso mesmo, descansar é um ato de fé. A pessoa que cessa as suas atividades para restaurar as forças e louvar ao Criador, demonstra que crê no cuidado divino: “Se eu parar não passarei naquele concurso ou tal problema não terá solução” são pensamentos comuns ao homem natural, mas não deveriam dominar a mente piedosa. O cristão maduro confia que Deus suprirá suas necessidades (Filipenses 4.19). Ele não somente diz que Deus é bom e todo-poderoso, mas ele experimenta dessa bondade em demonstrações cotidianas de misericórdia.

Assim sendo, uma agenda sobrecarregada é tão pecaminosa quanto uma agenda ociosa. Uma semana sem descanso é desobediência do quarto mandamento. Os mais poderosos circuitos precisam de refrigeração. O refrigério da alma chama-se descanso e não devemos estranhar que seja difícil descansar, pois nada que diga respeito à vida espiritual é fácil. Na mentalidade secular, “tempo é dinheiro”, descanso é desperdício. Na economia divina, os seis dias de produtividade intensa devem ceder espaço para o fazer nada que confirma a poderosa inatividade da dependência que provém da fé.

Rev. Misael. Publicado no Boletim 023.

Administrando o caos

Caos é desordem e confusão. Politicamente falando, trata-se de ausência de governo. Em uma empresa, significa desorientação estratégica ou metodológica. Em um quarto de adolescente… bem… quem tem filhos nessa idade sabe do que eu estou falando.

O relato do Gênesis nos mostra que aquilo que chamamos de “criação” envolveu, na verdade, tanto a criação propriamente dita (o surgimento sobrenatural de coisas que não existiam — Hebreus 11.3) como a organização do que estava sendo criado (a separação das coisas em categorias — Gênesis 1.3 a 2.3). Deus se revela não apenas como criador mas também como organizador.

No universo, o caos é percebido pelo menos por três razões, quais sejam, a fragmentação causada pelo pecado, a ação demoníaca e o modo direto como Deus intervém nos processos históricos.

Tanto o pecado quanto o diabo produzem confusão. O ser humano tem facilidade para “arranjar encrenca” e continuamente se vê preso a um emaranhado de problemas para os quais não enxerga solução. O coração, cheio de tolice, conduz para o erro e Satanás aproveita-se dessa brecha para semear a desordem.

O pior do caos é a sensação de insegurança, a noção de que Deus está ausente ou, se presente, zangado conosco. O mundo fica escuro e encontramo-nos sozinhos. O chão é tirado de sob nossos pés, somos chacoalhados em um triturador existencial e sentimo-nos exauridos, amargos ou rançosos.

Como administrar o caos?

Primeiro fazendo separações. Assim como Deus separou as águas (acima e debaixo do firmamento) e os luzeiros (os diurnos dos noturnos — Gênesis 1.7, 14) é preciso que dividamos os problemas em partes. A partir de então devemos nomeá-los, identificando suas características e peculiaridades. Perceberemos que todos eles se encaixarão em uma de duas categorias: os que podemos e os que não podemos resolver.

Depois, é hora de começar a solucionar os problemas da primeira categoria. Isso ao menos possibilita uma nova sensação: a ordem começa a inserir-se no caos e isso traz uma certa medida de alívio. Mas nada de ânimo precipitado; a vida nessa terra não oferece alívio completo.

Terceiro passo: entregar os problemas irresolúveis a Deus. O que não se pode resolver, não se pode resolver. Parece óbvio mas é incrível o quanto alimentamos úlceras buscando soluções impossíveis. O Senhor, conhecendo nossa finitude, orienta a que lancemos sobre ele nossas ansiedades, certos de que “ele cuida de nós” (Mateus 6.25-34; Lucas 12.22-34; Filipenses 4.4-7).

Isso nos leva a uma conclusão: o caos é permitido por Deus para acentuar nossa dependência. Aprendemos que não somos senhores soberanos sobre os detalhes de nossas vidas; o absurdo nos visita e desestabiliza, o infortúnio invade nossos lares sem pedir licença e temos de enfrentar o inesperado. “Damos conta” de algumas dificuldades mas, para outras, temos de aprender a confiar em nosso Pai celestial e todo-poderoso, sapientíssimo, bondoso e gloriosamente justo (Salmo 40.1-5; Romanos 8.18, 28).

Podemos organizar certas coisas; outras necessitam da palavra criadora de Deus e, entendamos bem, há certas manifestações de caos que não serão dissipadas neste lado da existência e aguardarão a consumação da história (Apocalipse 21.3-4).

Rev. Misael. Publicado no Boletim 022.